” Um homem muito rico era tão avarento que não suportava gastar nem um centavo de sua fortuna. Um dia o mestre Mokusen lhe fez uma visita:
— Se eu fechar minha mão para sempre, como ela lhe parece?
— Deformada.
— E se eu a abrir para sempre, como lhe parece?
— O mesmo, deformada.
— Se entender isso, será um homem muito feliz.
Daquele dia em diante, o homem tornou-se generoso. Continuou a ser frugal, mas passou a saber como gastar seu dinheiro e ser caridoso.
Todos os opostos — bem e mal, ter e não ter, ganhar e perder, eu e os outros — dividem a mente. Ao aceitá-los, nos afastamos de nossa mente original e sucumbimos a essa dualidade, gerando preconceitos, ignorância e, portanto, sofrimento. Contudo, o Budismo fica no meio, sem extremos. “
Conto ch’an
” A reencarnação existe ou não? Muitas pessoas creem que depois da morte o corpo desaparece, mas que o espírito perdura. Para o Budismo, o corpo e a mente não são separados. É muito importante compreender isso, senão nós reencarnaremos com a esperança de resolver nossos problemas de dualidade numa vida futura.
Mas não sabemos se esta vida presente é a segunda ou a última — e ficamos aguardando a próxima. Dessa forma, nunca poderemos resolver nossos problemas. Se existe ou não uma vida futura, ninguém sabe. O Buda jamais respondeu a esse tipo de pergunta, ele manteve o silêncio — o silêncio metafísico.
Todos querem opinar sobre esses assuntos, acerca dos quais ninguém pode estar seguro. Por exemplo, quanto à criação do mundo: nada se sabe sobre isso. Buda mantinha silêncio quando lhe perguntavam sobre assuntos como a criação do mundo, a vida depois da morte, os limites do universo. Tais perguntas jamais receberam uma resposta.
De qualquer forma, são inúteis, não têm qualquer importância na prática de nossa vida cotidiana, aqui neste mundo. Em japonês, chama-se a isso ‘muki’, ou seja , algo que não tem uma ‘marca fixa’. O Buda mantinha o silêncio porque, sabendo do sentido das perguntas, ele sabia que o único meio de responder a elas era o silêncio.
Certo dia, um monge-discípulo do Buda veio lhe fazer uma pergunta desse tipo. O Buda disse, ‘Eu não vou responder’. O monge insistiu: ‘Se você não responder, eu vou embora desta sanga*’. O Buda respondeu, ‘Pode ir embora’. Mas, mesmo assim, ele queria dar uma explicação e contou ao monge a seguinte história:
‘Ao caçar na montanha, um caçador foi atingido por uma flecha envenenada. Imediatamente, alguém quis extraí-la para lhe salvar a vida. Mas o caçador disse: — Não é uma questão de tirar a flecha! Primeiro eu desejo saber que tipo de veneno foi utilizado, o nome do veneno, o nome do tipo de madeira usado na confecção da flecha, que tipo de penas — e de que pássaro — foram empregadas. Quero também saber o tipo de planta de onde se extraiu o veneno — o exato nome da planta — etc.. Se vocês não souberem as respostas para minhas dúvidas, não poderão extrair a flecha. Dessa forma, o caçador acabou morrendo.’ “
Ryotan Tokuda Igarashi
* sanga: comunidade budista.
” Com frequência as pessoas se surpreendem ao descobrirem que é difícil meditar. Por fora parece uma coisa tão simples, simplesmente sentar-se numa pequena almofada e observar sua respiração. Qual seria a dificuldade disso? A dificuldade reside no fato de que o ser inteiro está totalmente despreparado. Nossa mente, sentidos e sentimentos são usados para negociar no mundo em que vivemos. Mas a meditação não pode ser feita no mundo. É impossível. Não há como negociar ou fazer acordos na meditação, mas a atitude da maioria das pessoas permanece a mesma de sempre e isso simplesmente não funciona. Precisamos de paciência com nós mesmos. Leva tempo até mudar para o ponto em que a meditação é de fato um estado mental, disponível a qualquer hora porque o mundo já não é mais tão importante.
Na meditação pode haver vislumbres momentâneos de notarmos que a concentração é factível, mas é difícil de ser sustentada. Ela constantemente escorrega outra vez e a mente volta direto para o lugar de onde veio; a fim de reagir contra isso, é preciso ter determinação para transformar sua vida numa vida meditativa; isso não significa que se tem que meditar desde a manhã até a noite. Não conheço ninguém que o faça. E não significa que não possamos cumprir nossos deveres e obrigações, porque são necessários e primários enquanto os tivermos. Mas significa que nós nos observamos atentamente em todas as nossas ações e reações. Isto se aplica ao menor detalhe, tal como nossa comida, o que ouvimos ou do que falamos. Só então poderá a mente estar preparada com uma qualidade meditativa quando nos sentarmos na almofada. Significa que não importa onde nos encontremos, permaneceremos introspectivos. Isso não quer dizer que não possamos falar com os outros, mas que observamos o conteúdo da conversa.
Isso não é fácil de se fazer e a mente sempre dá uma escapulida. Mas podemos estar conscientes da escapulida. Se não estivermos conscientes nem mesmo de que nos desviamos da atenção plena e vigilância interior, ainda não estamos no caminho meditativo. Se nossa mente tiver a qualidade estabelecida interiormente, a meditação tem boas chances. “
Ayya Khema, in Mente Meditativa
” O Buda nos disse que no fundo da nossa consciência existem diversos tipos de sementes, positivas e negativas — sementes de raiva, ilusão e medo, assim como sementes de compaixão, compreensão e perdão. Muitas dessas sementes nos foram transmitidas por nossos ancestrais. No caso de uma semente negativa, como raiva, medo, ciúmes e discriminação, deveríamos evitar que fosse irrigada na vida cotidiana, porque cada vez que tal semente é regada ela aparece na camada superior de nossa consciência, o que significa sofrimento, para nós e para aqueles que nos cercam. A prática é impedir que a semente negativa seja regada.
Também reconhecemos as sementes negativas nas pessoas amadas, e tentamos não regá-las. Se o fizermos, os seres que amamos serão infelizes e consequentemente nós também. Essa é a prática da ‘irrigação seletiva’. Se você quer ser feliz, evite regar suas próprias sementes negativas e também as dos outros, e peça aos que o cercam que evitem regar as sementes negativas que existem em você.
Tentamos reconhecer nossas sementes positivas e viver nossa vida diária de tal forma que possamos ter contato com elas e ajudá-las a se manifestar na camada superior da nossa consciência. Cada vez que essas sementes se manifestam e permanecem lá por algum tempo, ficam mais fortes. Se as sementes positivas ficarem mais fortes, seremos mais felizes e tornaremos felizes aqueles que nos cercam. Reconheça as sementes positivas na pessoa que você ama, regue essas sementes, e essa pessoa ficará cada vez mais feliz. “
Thich Nhat Hahn, in A Essência dos Ensinamentos de Buda
” A capacidade de mudar de perspectiva pode ser um dos instrumentos mais poderosos e eficazes de que dispomos para nos ajudar a resolver os problemas diários da vida. Com essa prática podemos usar certas experiências, certas tragédias, para desenvolver uma tranquilidade na mente. É preciso entender que todos os fenômenos, todos os acontecimentos, apresentam aspectos diferentes. Tudo tem uma natureza relativa.
Parece que muitas vezes, quando surgem problemas, nosso enfoque se estreita. Toda a nossa atenção pode estar concentrada na preocupação com o problema, e nós podemos ter a sensação de que somos os únicos a passar por tais dificuldades. Isso pode levar a um ensimesmamento que pode fazer com que o problema pareça mais sério. Quando isso acontece, creio que ver as coisas de uma perspectiva mais ampla pode decididamente ajudar… se nos dermos conta, por exemplo, de que existem muitas outras pessoas que passaram por experiências semelhantes e até mesmo piores. Essa prática de mudança de perspectiva pode até mesmo ajudar em certas doenças ou quando sentimos dor. Na hora em que a dor surge, naturalmente costuma ser muito difícil, naquele exato momento, seguir práticas formais de meditação para acalmar a mente. Quando se olha apenas para aquele acontecimento isolado, ele parece ser cada vez maior. Se focalizarmos muito de perto, com muita intensidade, quando ocorre um problema, ele parece incontrolável. Porém, se compararmos aquele acontecimento com algum outro acontecimento de importância, se avaliarmos o mesmo problema com algum distanciamento, ele irá nos parecer menor e menos avassalador. “
Dalai Lama, in A Arte da Felicidade