Palavras

2010 fevereiro 9
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por César Al'ban

” Um monge aproximou-se de seu mestre — que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da lua — com uma grande dúvida:

‘Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os sutras e as recitações são feitos de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Darma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?’.

O velho sábio respondeu: ‘As palavras são como um dedo apontando para a lua; cuida de saber olhar para a lua e não se preocupar com o dedo que a aponta’.

O monge replicou: ‘Mas eu não poderia olhar a lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?’.

‘Poderia’, confirmou o mestre, ‘e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A lua está e sempre esteve à vista. O Darma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o princípio’.

‘Então’, o monge perguntou, ‘por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?’.

‘Porque’, completou o sábio, ‘da mesma forma que ver a lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na verdade pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário’. “

Conto zen

Libertando-se da Ira

2010 fevereiro 8
por César Al'ban

” A ira é uma forma de energia. Vê-la sob esse ângulo é uma das maneiras mais básicas de se libertar desse sentimento. Remova-lhe todos os rótulos e isole-a de todas as histórias ou desculpas que possam justificar sua existência. É mais fácil colocar a ira em perspectiva e controlá-la quando a vemos unicamente como energia. Outra forma de dominar a ira é analisar os momentos do passado em que você teve esse sentimento. Qual a relevância deles agora? Será que eram realmente importantes na época? Depois de ter passado tempo suficiente, relembrar a ira é como relembrar o calor do fogo: existe a memória, mas não o sentimento.

O  sutra da Grande Sabedoria (Shastra Mahaprajnaparamita) diz:

‘A paz de espírito sucede à superação da ira.
Do triunfo sobre a ira advém uma mente sem arrependimentos.
A ira é a fonte do veneno que destrói a bondade.
Todos os Budas louvam aquele que vence a ira.
Não mais haverá ansiedade quando a ira houver sido subjugada’.

O sutra Sadarma Smriti Upasthana afirma que quem supera a ira inspira sentimentos de amor e de deleite em todos os que o veem. Sua mente é calma; seu semblante, puro; e todos nele confiam. Uma vez controlada a ira, diz o sutra, naturalmente se alcança o êxito no cumprimento dos preceitos e no controle de medo, paixão, crítica, palavras ásperas e tendência a reclamar ou ser amargo em relação à própria vida. O triunfo sobre a ira é fonte de muita felicidade. Os méritos que são outorgados àquele que venceu esse mal resultam em boas circunstâncias nesta vida e em bom renascimento depois dela. “

Mestre Hsing Yün

Egoísmo

2010 fevereiro 7
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por César Al'ban

” O primeiro-ministro da dinastia Tang da China era um herói nacional pelo seu sucesso tanto como homem de estado quanto como líder militar. Mas, a despeito de sua fama, poder e riqueza, ele se considerava um humilde e devoto budista.

Frequentemente ele visitava seu mestre zen favorito para estudar com ele, e eles pareciam se dar muito bem. O fato de que ele era primeiro ministro aparentemente não tinha efeito em sua relação, que parecia ser simplesmente a de um reverendo mestre e seu respeitoso estudante.

Um dia, durante sua visita usual, o primeiro-ministro perguntou ao mestre, ‘Mestre, o que é o egoísmo de acordo com o budismo?’.

O rosto do mestre ficou vermelho e, num tom de voz extremamente desdenhoso e insultoso, ele gritou em resposta: ‘Que tipo de pergunta estúpida é esta?’.

Tal resposta tão inesperada chocou tanto o primeiro-ministro que ele imediatamente respondeu de forma arrogante e raivosa: ‘Como ousa me tratar assim?’.

Neste momento o mestre zen sorriu e disse: ‘Isto, Sua Excelência, é o egoísmo…’. “

Conto zen

Budismo com Compromisso

2010 fevereiro 6
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por César Al'ban

” Meditar não significa sair da sociedade, nem fugir da sociedade; significa preparar-se para uma reentrada na sociedade. Chamamos isso de budismo com compromisso. Quando vamos a um centro de meditação, talvez tenhamos a impressão de deixar tudo para trás: família, sociedade e todas as complicações implicadas nelas, indo como indivíduo para praticar e buscar a paz. Em si isso já é uma ilusão, porque no budismo não existe o conceito de indivíduo.

Do mesmo modo que um pedaço de papel é a combinação ou fruto de muitos elementos que não são papel, o indivíduo é feito de elementos que não são indivíduos. Se você é poeta, vê claramente que existe uma nuvem flutuando dentro de uma folha de papel. Sem uma nuvem não há água; sem água, as árvores não conseguem crescer; e sem árvores não se pode fazer papel. Por isso a nuvem está aqui. A existência da página de um livro depende da existência de uma nuvem. Papel e nuvem estão muito próximos. Vamos pensar em outras coisas, por exemplo, a luz do sol. A luz do sol é muito importante porque a floresta não consegue crescer sem a luz do sol e nós, seres humanos, não conseguimos crescer sem a luz do sol. Sendo assim, o lenhador precisa da luz do sol para cortar a árvore e a árvore precisa da luz do sol para ser árvore. Portanto você pode ver a luz do sol na folha de papel. E se olhar com mais profundidade, com olhos de quem está desperto, não verá apenas a nuvem e a luz do sol no papel, verá tudo: o trigo que se transformou em pão para o lenhador, o pai do lenhador, tudo está na folha de papel. “

Thich Nhat Hanh

Vivendo Hoje

2010 fevereiro 5
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por César Al'ban

” O famoso mestre de espada Tesshû Yamaoka (1837-1888) deixou o seguinte poema:

‘É bom quando o sol está brilhando.
Também é bom quando está nublado.
A forma do Monte Fuji
Não é afetada por isto’.

Na vida não há ‘apenas bom’ ou ‘apenas ruim’. As situações que encontramos são diferentes a toda hora. Um bom dia é confortável para nós e fácil de aceitar. Um dia com experiências desconfortáveis nos faz infelizes. Devemos levar ao coração as palavras de Ryôkan Osho (1758-1831), que expressa supremamente a sua atitude:

‘Quando se encontra com contratempos, você se encontra com contratempos e tudo está bem. Quando fica doente, você experiencia sua doença e então tudo está bem. Quando chega a sua hora de morrer, você morre, então não há problema’.

Com essa atitude, todo dia é bom para nós. Mas na vida diária, muitas coisas inesperadas acontecem. Não importa onde estejamos, com nossa família, na escola, na sociedade, sempre encontramos outras pessoas e não podemos lidar com tudo por nós mesmos. Vivendo com os outros, experienciamos que não basta que nós mesmos estejamos bem. Quando somos governados pelo egoísmo, nenhum dia é um bom dia.

Os ensinamentos dos budas explicam isto assim: antes de proteger a si mesmo, protegemos os outros. Protegendo os outros, protege-se a si mesmo. Uma vez que este modo de vida tenha se tornado trivial, entendemos que os problemas da sociedade são nossos próprios problemas. Se todos pensassem assim e começassem a resolver seus próprios problemas, então haveria paz entre os seres humanos. Compartilhando agradecidamente todo bom dia com todos os outros seres, estando pacificamente juntos, assim se experiencia a felicidade. Até que realmente tenhamos entendido e realizado isto em nossa vida, precisamos da prática e, acima de tudo, a atitude de considerar cada dia seriamente. “

Hozumi Gensho Rôshi